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A cada dia, em média, quase dois professores são agredidos em seus locais de trabalho no Estado de São Paulo, mostram dados de registros policiais obtidos pela Folha por meio da Lei de Acesso à Informação.

O número leva em conta as 178 queixas de educadores em delegacias no primeiro semestre deste ano em datas do calendário escolar (dias úteis do período de fevereiro a junho).

Elas se referem a ocorrências de "vias de fato" (37%), como um empurrão sem maiores consequências, e ao crime de lesão corporal (63%). Aconteceram em creches, escolas e universidades, tanto públicas como particulares.

Há educadores atingidos com lixeiras, carteiras escolares, socos, chutes e pontapés. Em ao menos um de cada quatro casos, um aluno foi apontado entre os agressores -a maioria dos registros não identifica os responsáveis.

O número real de ocorrências é provavelmente ainda maior, pois, em um terço dos casos, a profissão da vítima não é identificada no boletim. Sabe-se ainda que, em estatísticas de violência, é comum haver subnotificação, pois parte das pessoas não chega a procurar a polícia.

A violência contra professores ganhou repercussão nacional nas últimas semanas com a imagem de Márcia Friggi, de Indaial (SC), fotografada com sangue no rosto após levar um soco de um aluno. A cena chamou a atenção para casos que se repetem todos os dias em todos os Estados.

Em 2015, 23 mil professores do país relataram ter sido ameaçados por algum estudante da escola, segundo questionários da Prova Brasil, exame aplicado pelo Ministério da Educação.

Para especialistas, dois fatores se combinam para explicar as agressões. De um lado, está a violência que existe na própria sociedade. "Os conflitos transpassam o muro da escola e continuam ali", afirma Renato Alves, pesquisador do NEV (Núcleo de Estudos da Violência) da USP.

"Crianças que vivem em ambientes violentos tendem a se relacionar de maneira pior com seus colegas e professores", completa Priscilla de Albuquerque Tavares, da FGV.

Por outro lado, a desconexão entre o aluno e a escola agrava o problema, diz Bernard Charlot, que conduziu pesquisas sobre o tema para o governo francês e hoje é professor visitante na Universidade Federal de Sergipe. "Um aluno que passa cinco dias na escola desinteressado, sem ver sentido no que aprende, vira foco de tensão permanente. Com qualquer faísca, pode gerar incêndio."

SOCOS E PONTAPÉS

"Quem é que sai para trabalhar pensando em tomar um soco na cara?" A pergunta não sai da cabeça do professor Márcio Gomes, 40, há mais de um mês. Na primeira quinta-feira de agosto, dia 3, ele sentiu um clima estranho já durante a aula, numa escola estadual da cidade de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo.

Ensinava equação de segundo grau quando um aluno que ele nunca tinha visto entrou na sala, pegou o celular de outro estudante e fez barulho no corredor ao sair. Advertido por uma funcionária, gritou palavrões e disse que iria dar um soco nela.

Ao ouvir a ameaça, Márcio procurou a colega para alertá-la. Não imaginava que era ele quem iria, involuntariamente, entrar na estatística de professores atacados em seu local de trabalho.

Naquele dia, menos de três semanas antes de a professora Márcia Friggi ser atacada em Santa Catarina, Márcio foi surpreendido no pátio pelo aluno desconhecido que entrara no meio da sua aula.

"Ele estava sentado em um grupo", lembra. "Com um olhar fixo de raiva, levantou-se, veio até mim e começou a me dar socos e pontapés. Andei uns quatro metros para trás até escapar." O apagador que Márcio segurava quebrou. As pancadas atingiram sua cabeça e sua perna.

O motivo do ataque o professor não sabe bem até hoje. Desconfia que o estudante, de 16 anos, possa ter ficado revoltado quando ele alertou a outra funcionária sobre a ameaça no corredor.
DESPROPORÇÃO

A perplexidade dos professores agredidos ao lembrar o início do episódio de violência é comum em seus relatos. Por mais injustificável que seja o ato de violência em si, chama a atenção a desproporcionalidade entre a agressão e a desavença que a originou.

Maria (nome fictício), 39, foi parar na UTI após um aluno reclamar que recebera a nota errada numa escola da zona leste de São Paulo.

Professor de artes, Jeferson Siqueira, 49, foi golpeado com uma cadeira após repreender um jovem que havia batido o caderno com força na mesa num colégio na zona norte. Machucou antebraço, cotovelo e mão. Teve o dedo mindinho quebrado.

Luciana Rocha Frias, 41, foi xingada aos gritos pela mãe de uma criança da rede municipal após um mal entendido sobre o tamanho do uniforme. Funcionários se colocaram na frente da professora para impedir a agressão.

O fenômeno do "motivo fútil" já foi identificado em pesquisas sobre violência escolar de outros países, diz Bernard Charlot, professor aposentado da Universidade Paris 8 que conduziu estudos sobre o tema para o governo francês há duas décadas.

"Quando se analisam os casos, muitas vezes não se entende como uma coisa tão pequena gerou uma reação tão forte", diz ele, que hoje atua na Universidade Federal de Sergipe. "Mas, em geral, já havia uma questão maior antes do episódio de violência -não necessariamente ligada ao professor."

No caso de Jeferson, por exemplo, o colégio tinha um problema com drogas. Dias antes, ele e o aluno que depois o agrediu haviam tido uma discussão. "Ele traficava dentro da escola e sentava perto da porta para cobrar as pessoas no corredor. Mandei ele fechar a porta, e ele ficou nervoso", afirma.

Muitas vezes a agressão na escola também ocorre após uma sucessão de pequenos atos de incivilidade, de acordo com Renato Alves, pesquisador do NEV (Núcleo de Estudos da Violência) da USP e autor de estudos sobre o tema.

Se a escola não tomar uma atitude que deixe claro que aquilo não pode ser feito, um xingamento e um bullying, por exemplo, podem redundar em um ataque físico. É importante notar, diz, que muitas vezes o ato de violência é só a ponta do iceberg de uma série de frustrações que explodem dentro da escola.
FRUSTRAÇÃO

Professor em Mogi das Cruzes, Álvaro Dias lista alguns acontecimentos recentes nas escolas da cidade, para ele sintomas da frustração com uma mesma gestão educacional fracassada: alunos jogaram verniz e urinaram em uma caixa-d'água; fizeram corredor polonês para agredir colegas; queimaram o carro de uma diretora; agrediram mais de uma professora.

Fábia Morente, 41, foi uma delas. Com 20 anos de profissão, a docente entrou mais de uma vez na estatística.

Os episódios começaram há alguns meses, após ela avisar uma colega que alunos haviam quebrado uma vidraça do colégio. Pouco depois, ela chegou em seu carro e descobriu que tinham descarregado no veículo todo o conteúdo de um extintor.

Em abril deste ano, veio a situação mais grave, no meio de uma aula do 9º ano. "A porta da sala estava aberta. Eu só vi uma lixeira voando, e os alunos gritando: 'não!'." Não deu tempo de desviar. A lixeira -cheia- bateu na cabeça e no ombro de Fábia.

Na última quarta-feira (13), ela decidiu voltar à delegacia, agora por causa de outro ataque. Dessa vez, a porta da sala estava fechada. Um aluno colocou uma bombinha no buraco da porta, e estilhaços atingiram seu ombro. "Recebemos uma cobrança enorme, mas não temos estrutura para trabalhar", reclama ela.

Agressões não são o único problema enfrentado pelas professoras mulheres. Luciana (nome fictício) registrou queixas de outra ordem. Ela dá aulas de educação física em uma escola pública da periferia de Campinas (interior de São Paulo) e prefere não ser identificada.

Conta que, no início do ano, alunos começaram a assediá-la. Ela passou de sala em sala e pediu respeito. Um mês depois, viu seu carro inteiro riscado de "canetão", com palavras como "gostosa" e desenhos obscenos. Até hoje não se sabe quem foi o autor -o que significa que ninguém foi punido.

Educadora da rede municipal, Silvana Ferreira, 32, foi alvo de outro crime, também dentro da escola, uma unidade da rede municipal em Cidade Tiradentes (zona leste). Bandidos entraram no fim do dia, trancaram os professores em uma sala e levaram todos os pertences. "A gente até espera ser abordado na rua, mas não no seu local de trabalho", afirma.
CONSEQUÊNCIAS

Ainda que graves, poucos casos se comparam ao de Maria (nome fictício), que pediu para não ser identificada. "Rodo nela", escreveu em uma rede social um aluno de 16 anos após dar uma rasteira nela, em uma escola na zona leste de São Paulo. O ataque aconteceu após uma discussão sobre o registro da nota do estudante.

Pega de surpresa pela rasteira, Maria caiu, bateu a cabeça e ficou mais de cinco minutos desacordada. No chão da escola estadual na zona leste de São Paulo, teve convulsões e ficou três dias em observação na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) de um hospital, com a costela trincada.

Hoje, está bem de saúde. Mas tem medo e, com medo, não é mais a mesma na sala de aula, diz. "A minha matéria [matemática] não é a do professor mais bonzinho. A gente precisa de atenção, disciplina, que os alunos façam o exercício", afirma. "Mas não consigo mais ter a mesma autoridade. Se um aluno falasse que não ia fazer algo, antes eu insistia. Agora eu só respondo: 'tá' bom."

Seu caso, ocorrido no fim do ano passado, causou comoção na rede estadual. Professores de diversos colégios foram trabalhar vestidos de preto. Alunos fizeram protestos e homenagens à professora. Em um dos cartazes, lia-se: "professores desmotivados, alunos prejudicados".

A reação revela duas características da violência escolar. A primeira é que, ao contrário do que podem dar a entender números alarmantes, os atos são praticados e tolerados por uma minoria. "Os casos que ocorrem são muito graves, mas não significa que a escola virou um lugar onde predominam o medo e os ataques", diz Alves, do NEV/USP.

A segunda característica é que, se os agressores são minoria, as consequências de seus atos atingem toda a escola. Aulas são interrompidas, profissionais adoecem e pedem licença, e alunos ficam sem professores.

Atacada pela mãe da aluna, Luciana Rocha, 41, ficou dois anos afastada após o episódio, por motivos de saúde. "Não consigo mais entrar na sala de aula", diz.

Ela hoje exerce funções administrativas, assim como Jeferson, que foi atacado com a cadeira em 2015. Desde que foi golpeado, ele toma medicamentos contra depressão e síndrome do pânico. Evita pegar ônibus na hora do almoço para não encontrar outros estudantes no transporte. Talvez até volte a lecionar, mas não tem certeza.

Agredido há pouco mais de um mês em Bragança Paulista, Márcio voltou à sala de aula, mas em outra escola. Dessa vez, conta, foi ele que pediu desculpas aos estudantes -por não conseguir "se segurar" na sala. "Chorei por quase um minuto e meio na frente deles", afirma.

SOLUÇÕES

Apontados como fatores que influenciam a violência escolar, os problemas sociais e de segurança pública não se resolvem simplesmente por iniciativa das escolas. Na tentativa de uma solução interna, escolas de São Paulo têm apostado em ações de mediação de conflito.

Na rede estadual, desde 2010, professores têm sido treinados para atuar em casos de ofensas, ameaças e agressões, inclusive com ações preventivas. A atuação desses profissionais tinha melhorado a situação da violência, diz Maria Izabel Noronha, dirigente da Apeoesp (sindicato dos professores da rede estadual). Segundo ela, porém, parte do quadro desses profissionais foi cortada pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB).

Chefe de gabinete da secretaria de Educação, Wilson Levy rebate a informação e afirma que houve uma junção desse programa com outro, de escola da família. Segundo ele, a pasta anunciará em breve um programa para aumentar o número de professores mediadores na rede, com foco nas regiões com maior vulnerabilidade social do Estado. "Mas é preciso lembrar que o que acontece na escola é um sintoma", afirma. "A violência está na sociedade."

Diante da reclamação sobre a falta de recursos na educação superior, voltaram a tramitar no Congresso projetos antigos que preveem a criação de fundos patrimoniais para permitir que pessoas físicas e empresas façam doações a universidades.

Representantes dos ministérios da Educação, do Planejamento, da Fazenda e da Casa Civil têm tido reuniões para tratar do assunto, mas, segundo pessoas com conhecimento da questão, ainda não conseguiram chegar a um consenso sobre as propostas.

Enquanto a Educação defende a criação dos fundos, a área econômica tem o pé atrás em relação à possibilidade de implementar um estímulo fiscal via dedução do Imposto de Renda, ainda que não ocorra, necessariamente, um grande volume de doações.

Ao mesmo tempo, a associação dos reitores defende a criação desses fundos, mas teme que o governo use as doações para substituir repasses de recursos públicos.

"Queremos que as universidades possam receber doações, mas queremos nestas condições: que tenhamos total autonomia para gerir os recursos e que as doações não substituam as dotações orçamentárias regulares", disse o presidente da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), Emmanuel Tourinho.

Nos últimos dias, voltaram a tramitar nos Congresso pelo menos dois projetos antigos que tratam do assunto.

No Senado, a Comissão de Assuntos Econômicos aprovou um projeto de 2015 que prevê que as doações possam ser usadas para obras, equipamentos, bolsa de estudos e qualificação, entre outros.

O texto, que também precisa passar pela Câmara, estava pronto para ser votado no colegiado desde 2016.

O projeto que tramita na Câmara é ainda mais antigo: foi apresentado em 2012. Na última semana, esse texto que cria os fundos patrimoniais foi pautado na Comissão de Constituição e Justiça da Casa. Devido a um pedido de vista, a votação foi adiada.

ESTÍMULO FISCAL

O texto da Câmara prevê que os doadores tenham a opção de deduzir do IR os valores das doações até o limite de 12%, assim como as demais deduções.

O projeto do Senado prevê que as deduções só possam ocorrer a partir de 2021.

Para o secretário-executivo-adjunto do Ministério da Educação, Felipe Sigollo, "a grande discussão" é o estímulo fiscal. "A saúde encontrou formas de financiamento que a gente ainda não encontrou. Outras áreas têm incentivos fiscais que a educação não tem, como a Lei Rouanet [incentivo à cultura], incentivo ao esporte."

A pasta da Educação quer mudanças no texto da Câmara, como a ampliação do uso da verba para o ensino. Da forma como está, o projeto contempla apenas pesquisa.

Outra mudança necessária, na avaliação da equipe da Educação, é dar poder de decisão ao doador em relação à forma como a verba será utilizada. "É importante que o doador tenha protagonismo. Ele dá o dinheiro, ele participa de um conselho, de um comitê gestor para dizer o que pode ser feito", disse Sigollo.

A relatora da proposta da Câmara, Soraya Santos (PMDB-RJ), espera que o texto seja votado na comissão em caráter terminativo nesta semana e, com isso, vá para o Senado sem ter de passar pelo plenário da Câmara.
O Ministério da Fazenda informou que o assunto ainda tem de ser estudado.

O STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu nesta quinta-feira (3) manter a decisão que condenou a União a indenizar a massa falida da empresa aérea Varig em aproximadamente R$ 3 bilhões.

Na sessão, a corte rejeitou um recurso apresentado pela AGU (Advocacia-Geral da União) para que supostas contradições fossem corrigidas na decisão, tomada pelos ministros em 2014.

A massa falida de uma empresa é formada no momento em que é decretada a falência e consiste no acervo do ativo e passivo de bens do falido.

O caso tramita na Justiça há mais de 20 anos e trata do congelamento de preços imposto para conter a inflação, durante a vigência do Plano Cruzado, entre 1985 e 1992.

A forma de execução da indenização ainda não foi definida pelo Supremo.

A Varig alegou que a medida causou prejuízos financeiros à empresa, como a dilapidação de seu patrimônio e pediu a indenização, que foi concedida pelo STF.

O valor que for recebido deverá ser usado para pagar dívidas trabalhistas do fundo de pensão Aerus, formado por ex-funcionários da empresa que buscam o recebimento dos valores desde a falência da Varig.

AGONIA FINANCEIRA

A companhia, que parou de voar em 2006, passou anos de agonia financeira aguardando o desfecho dessa ação para sobreviver.

Com dívidas bilionárias com fisco, Previdência, Infraero e outros credores, a companhia contava com os créditos que considerava que tinha direito pelo congelamento de tarifas

Quando a Varig foi vendida, em 2006, os trabalhadores não recebiam havia quatro meses —a rescisão não foi paga, e a empresa não depositava FGTS.

A "parte boa" da Varig foi comprada em 2007 pela Gol.

Os investimentos públicos estão no menor patamar dos últimos dez anos, o que pune principalmente o setor da construção civil e contribui para puxar o PIB (Produto Interno Bruto) para baixo.

Em meio ao forte esforço para reduzir despesas e cumprir a meta fiscal, os investimentos do governo federal nos primeiros sete meses do ano somaram R$ 16,3 bilhões, quase R$ 10 bilhões a menos do que o mesmo período de 2016 e o menor valor desde 2008, quando começa a série disponibilizada à Folha pelo Tesouro Nacional, com dados corrigidos pela inflação.

Nesse grupo estão incluídas obras públicas e compra de novas instalações para órgãos do governo, além de material de uso permanente, como computadores.

Os investimentos são os candidatos naturais a corte em tempos de ajuste, uma vez que mais de 90% das despesas públicas obedecem a regras de desembolso e não podem ser reduzidas sem mudar a legislação. Por outro lado, são um importante fator de estímulo à economia.

Manoel Pires, economista da FGV e ex-secretário de Política Econômica do governo Dilma Rousseff, afirma que cortar investimentos tem forte impacto na atividade, superior à redução de despesas com funcionalismo ou com subsídios, por exemplo.

"Quando se aumentam os subsídios, o efeito sobre a atividade é marginal. No caso de despesas com pessoal, é de 0,6 a 0,7 [ponto percentual] no PIB. Para investimentos, isso sobe para 1,4 a 1,6 [ponto percentual]", afirma.

Em outras palavras, a cada R$ 1 gasto pelo governo com investimentos, o PIB aumenta R$ 1,60. Se há corte, o impacto é oposto.

Para Fabio Klein, da consultoria Tendências, sem a reforma da Previdência ou a redução de subsídios —este último também só pode ser mudado por decisão do Congresso Nacional—, não é possível fazer outro tipo de ajuste.

"[O corte dos] investimentos são quase a única solução para cumprir a meta. A economia está sendo feita evitando um gasto bom", disse.

Apesar dos efeito adverso na atividade, Klein afirma que o ajuste é indispensável para a recuperação da economia, uma vez que indica que a evolução das despesas no futuro é sustentável e compatível com as receitas públicas.

CONSTRUÇÃO

Observando os investimentos no detalhe, é possível verificar que são as obras os principais alvos de corte.

Levantamento do Tesouro mostra que os gastos com investimentos caíram 13% desde o fim de 2013, ano anterior ao do início da recessão. Mas as despesas com obras, conservação de estradas e Minha Casa, Minha Vida despencaram 40% no período.

Em julho (somando as despesas dos últimos 12 meses), esses gastos somaram R$ 19 bilhões, ante os R$ 32 bilhões despendidos em 2013.

Segundo a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), as contratações do Minha Casa, Minha Vida caíram a menos da metade de 2013 a 2016. Em 2013, foram 940 mil unidades, ante 385 mil no fim de 2016.

Além disso, o governo encolheu as despesas com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

"O governo disse que iria retomar 1.600 obras que estavam paradas, dentro de um universo ainda maior [de investimentos atrasados]. Mas, do jeito que cortaram despesas, não devem chegar nem a essa marca", disse José Carlos Martins, da CBIC.

Com dificuldades de caixa, o governo já sinalizou que o PAC poderá ser reduzido ainda mais em 2018, caso não consiga cortar despesas obrigatórias com as reformas.

O roteiro da recuperação da economia, após a profunda recessão em que o país afundou há três anos, mudou nos últimos meses, segundo avaliação do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn.

Se há um ano acreditava-se que a atividade recobraria impulso com ajuda de novos investimentos, hoje o mais provável é que o consumo seja o motor da retomada.

"Há um ano, todos imaginavam que a economia brasileira poderia voltar a crescer a partir do aumento de confiança, que geraria investimentos, renda e consumo", disse o presidente do BC à Folha, em entrevista concedida na quinta-feira (24). "Essa ordem está um pouco diferente."

Para Goldfajn, a queda acentuada da inflação, que está mais baixa do que o esperado há um ano, está produzindo um aumento da renda disponível e dando combustível para o consumo, apesar dos níveis de desemprego ainda muito elevados.

Desde que assumiu o governo com o afastamento de Dilma Rousseff, em maio do ano passado, o presidente Michel Temer tem se esforçado para recuperar a confiança de empresários, apostando que a volta dos investimentos faria a economia reagir.

Mas os investimentos não voltaram, e a economia parece estar saindo lentamente da recessão. Para Goldfajn, além da inflação mais baixa, fatores como a liberação do dinheiro das contas inativas do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) contribuíram para animar a atividade.

Na sua visão, ela segue na mesma toada mesmo depois do impacto da crise política deflagrada pelas acusações feitas contra Temer pelo empresário Joesley Batista, que fez acordo de delação premiada com o Ministério Público.

"Para bater no investimento, a confiança tem que passar o obstáculo da capacidade ociosa, que ainda é muito grande", afirmou Goldfajn. "A confiança não gerou esse aumento de atividade no ano passado. Mas também não reduziu a atividade, mesmo com a incerteza recente."

Para o presidente do Banco Central, o desequilíbrio nas contas do governo federal, que aumentou a previsão de deficit no Orçamento deste e dos próximos três anos, não aumenta as incertezas, porque o governo segue empenhado em conter suas despesas e promover reformas como a da Previdência Social.

Goldfajn acha que a economia ainda sofre com os "excessos" do passado: "Excessos de gastos, empréstimos e endividamento [...] que tiveram que ser equacionados".

*

Folha - O rombo no Orçamento aumentou e o governo encontra dificuldades no Congresso para aprovar reformas e medidas que gerem receita. Isso preocupa o Banco Central?
Ilan Goldfajn - Não acho que as incertezas pioraram do fim de maio para cá [após o impacto inicial da delação dos donos da JBS, em meados de maio]. Até melhoraram. Tivemos avanços relevantes com a aprovação da reforma trabalhista, e a nova política de juros do BNDES está avançando.

As reformas geram mais conforto para a política monetária de longo prazo. Uma taxa [de juros] estrutural que permite chegar à meta de inflação de forma sustentável. E quanto menor [a taxa] for, melhor.

Mas a situação se agravou. O governo reviu sua projeção para o deficit do Orçamento.
A gente sempre falou que essa questão, o curto prazo, é menos relevante do que a trajetória das contas públicas. Precisamos que as contas públicas estejam em ordem.

A dívida pública brasileira equivale a 73% do PIB (Produto Interno Bruto) e destoamos de outros países emergentes.
Temos que trabalhar para ter uma dívida sustentável. Isso exige a reforma da Previdência e ações para conter despesas obrigatórias, a grande causa dos impactos fiscais.

A inflação caiu aceleradamente e está abaixo do que era esperado há um ano. O Banco Central não poderia ter começado a reduzir a taxa de juros mais cedo e com mais força?
As projeções dos analistas para a inflação deste ano são de 3,5%, pouco abaixo da meta [fixada pelo governo, de 4,5%]. Em parte, isso tem a ver com um choque nos preços dos alimentos, que caíram.

Temos que nos acostumar com a ideia de que a inflação gira em torno da meta. Tivemos anos de inflação acima da meta. Era difícil imaginar que ela pudesse ficar abaixo.

Passamos dois anos com inflação alta, de dois dígitos, em meio a uma recessão relevante. Em 2014 e 2015. Mas a inflação só começou a cair no último trimestre de 2016.

A melhora recente no emprego e no consumo aponta uma virada no ritmo de atividade?
Eu diria que está cada vez mais evidente que o pior ficou para trás, e a economia estabilizou. A dúvida é o ritmo de recuperação. É gradual, ou será mais forte? É nisso que nós estamos pensando agora.

Há um ano, todos imaginavam que a economia brasileira poderia voltar a crescer a partir do aumento de confiança, que geraria investimentos, renda e consumo. O emprego seria o último a se recuperar.

Essa ordem está um pouco diferente. A inflação caiu mais rápido do que se imaginava. Inflação baixa gera aumento de salário real, que gera consumo, e a economia começa a se recuperar. Essa é uma hipótese. A outra é [a liberação das contas inativas do] FGTS, que pode ter dado um alento.

Por que a volta da confiança não trouxe investimentos?
Para bater no investimento, a confiança tem que passar o obstáculo da capacidade ociosa, que ainda é muito grande. O investimento, em geral, é para aumentar a capacidade. Existem alguns setores, infraestrutura, que poderiam ter aumento de investimento.

A confiança não gerou esse aumento de atividade no ano passado. Mas também não reduziu a atividade, mesmo com a incerteza recente [após a delação dos donos da JBS]. Outras forças continuaram puxando a atividade, a inflação em queda e talvez o FGTS.

Por que, apesar da redução da taxa básica de juros, as taxas cobradas de empresas e consumidores caem tão devagar?
A tendência é de queda. Com a economia se recuperando e as incertezas diminuindo, o custo de crédito tende a diminuir. Leva um tempo.

Ainda é reflexo da renegociação de dívidas e outros problemas herdados da recessão?
Tivemos uma herança de excessos: de gastos, empréstimos, endividamento. Houve muitos excessos nos últimos anos que tiveram que ser equacionados. No caso da pessoa física, como os empréstimos têm duração mais curta, esse processo foi mais rápido, e [o crédito] já está crescendo há meses.No caso das empresas, é mais lento.

Com a nova taxa de juros do BNDES, há risco de investimentos ficarem mais caros quando sairmos da recessão?
Os investimentos vão se beneficiar quando houver juros menores para todo mundo. O sistema [bancário] privado hoje diz que não tem como competir com juros subsidiados. E o BNDES, que precisa financiar porque ninguém está investindo. É um ciclo vicioso, e tem que quebrar isso.

Críticos afirmam que a TLP encareceria os empréstimos e poderia esvaziar o BNDES.
Bancos de desenvolvimento não necessariamente funcionam com subsídios, mas como um banco que encontra falhas de mercado, ou seja, setores onde de fato o banco precisa estar. Por exemplo, pequenas e médias empresas, que têm mais dificuldade de captar no mercado de capitais, no exterior ou nos bancos.

Se for importante o subsídio, é possível continuar dando, mas de forma transparente, no Orçamento. É difícil defender a ideia de que precisamos dar subsídio via diferencial da taxa de juros, que ninguém consegue ver direito e tem impacto na economia.

Por último: não existe nenhuma empresa no Brasil que consiga captar a taxas do Tesouro. Portanto, se você oferece a taxa do Tesouro [como a TLP faz], está oferecendo a menor taxa do mercado.

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