
Pix. - Imagem: Etalbr/iStock
Para milhões de brasileiros, o Pix é apenas parte da rotina. Está no cafezinho da manhã, na corrida de aplicativo, na conta dividida entre amigos e nas compras do dia a dia. Agora, porém, o sistema de pagamentos instantâneo criado pelo Banco Central entrou no centro de uma disputa comercial envolvendo a maior economia do mundo.
Ao justificar a proposta de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, o governo dos Estados Unidos colocou o Pix na lista de práticas que considera prejudiciais aos interesses de empresas norte-americanas.
O argumento de Washington é que o Banco Central teria criado condições que favorecem o sistema de pagamentos brasileiro em detrimento de soluções privadas operadas por companhias estrangeiras.
Para o governo brasileiro, trata-se de uma ferramenta pública que ampliou a eficiência dos pagamentos e reduziu custos para consumidores e empresas.
Mas, para especialistas, por trás desse embate está a disputa por um setor que movimenta bilhões de dólares todos os anos, historicamente dominado por redes privadas de pagamentos estrangeiras.
Por que os EUA colocaram o Pix na mira
A ofensiva contra o Pix começou oficialmente em julho de 2025, quando o governo de Donald Trump abriu uma investigação para apurar supostas práticas comerciais consideradas desleais por parte do Brasil.
O processo foi conduzido pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), órgão responsável por avaliar barreiras ao comércio norte-americano ao redor do mundo.
Mais de um ano depois, o relatório final incluiu o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos entre os pontos de preocupação de Washington, ao lado de temas como tarifas sobre etanol, propriedade intelectual, corrupção, big
Na avaliação do governo norte-americano, o problema não está apenas no sucesso do Pix, mas na forma como o sistema foi estruturado e promovido pelo Banco Central.
Segundo o USTR, a autoridade monetária brasileira exerce simultaneamente dois papéis: regula o mercado de pagamentos e opera a principal infraestrutura desse mesmo mercado.
Para os Estados Unidos, essa combinação cria um potencial conflito de interesses e teria permitido ao Banco Central favorecer o Pix em detrimento de soluções privadas concorrentes.
O relatório afirma que empresas norte-americanas que atuam em meios de pagamento eletrônicos foram prejudicadas por regras que incentivam a adoção do sistema brasileiro.
Entre os pontos destacados pela investigação está a obrigatoriedade de participação no Pix para instituições financeiras com mais de 500 mil contas.
O documento também menciona regras que determinam que bancos e instituições participantes ofereçam o Pix gratuitamente para pessoas físicas e deem ao sistema destaque semelhante ao de outros meios de transferência em seus aplicativos e plataformas digitais.
Na visão do USTR, essas medidas acabam impulsionando a adoção do Pix em detrimento de soluções privadas.
“Além disso, o Banco Central incentiva o uso do Pix em detrimento de outros serviços, exigindo que as instituições participantes (incluindo as instituições que ela exige para participar do mecanismo) ofereçam o Pix gratuitamente a indivíduos”, afirma o relatório.
A conselheira do USTR Jennifer Thornton descreve o Pix como um "ônus" ao comércio norte-americano.
Thornton argumenta que o Brasil obriga empresas estrangeiras a promoverem gratuitamente o sistema que, na prática, compete diretamente com seus próprios produtos.
O alvo das críticas inclui tanto as grandes bandeiras de cartões quanto empresas de tecnologia que operam serviços de pagamentos digitais.
A disputa dos EUA pelas taxas
Na visão de especialistas, por trás do embate sobre o Pix existe uma discussão econômica de grandes proporções.
O mercado global de pagamentos movimenta trilhões de dólares por ano e historicamente foi dominado por redes privadas que atuam como intermediárias das transações financeiras.
No modelo tradicional dos cartões, empresas como Visa e Mastercard recebem receitas provenientes das taxas cobradas ao longo da cadeia de pagamentos.
Já o Pix funciona de forma diferente. Ao permitir transferências instantâneas a baixo custo e sem a necessidade de intermediários tradicionais em diversas operações, o sistema alterou a dinâmica competitiva do setor brasileiro.
Segundo a Bloomberg, grandes empresas de tecnologia e bandeiras de cartões teriam pressionado o governo norte-americano a agir em relação ao modelo brasileiro.
O receio do “efeito Pix”
Para alguns especialistas, o desconforto dos EUA vai além do mercado brasileiro.
À Agência Brasil, o professor Pedro Paulo Zahluth Bastos, da Unicamp, afirmou que existe um receio de que o sucesso do Pix se transforme em um exemplo para outros países.
Na prática, o temor seria que governos passem a desenvolver infraestruturas próprias de pagamentos, reduzindo a dependência de redes privadas globais.
O fenômeno já não é exclusivo do Brasil. A Índia, por exemplo, também desenvolveu sistemas públicos de pagamentos digitais que ganharam ampla escala e passaram a competir diretamente com soluções privadas.
Na avaliação de Bastos, o avanço desses modelos desafia estruturas de mercado historicamente dominadas por grandes empresas financeiras internacionais.
Para ele, a pressão norte-americana é uma tentativa de assegurar os "lucros monopólicos" do capital financeiro estrangeiro frente à autonomia brasileira.
--Pix como patrimônio nacional: a resposta do governo brasileiro
O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou o Pix como um “patrimônio nacional” e afirmou que o sistema não entrará na mesa de negociação comercial com os Estados Unidos.
“O Pix é um patrimônio nacional, é uma conquista do povo brasileiro, a tecnologia a serviço da sociedade e da economia, sem nenhum custo para as empresas e para a população. O Pix não tem a menor lógica entrar nisso porque ele não prejudica ninguém”, disse Alckmin.
Além da defesa do sistema de pagamentos, o governo brasileiro também contestou a narrativa dos EUA sobre prejuízos comerciais. Segundo Alckmin, a relação econômica entre os dois países é amplamente favorável aos Estados Unidos.
De acordo com o vice-presidente, somando bens e serviços, os EUA registraram um superávit de aproximadamente US$ 40 bilhões na relação comercial com o Brasil apenas no ano passado.
Por isso, ele classificou a proposta de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros como uma medida desproporcional.
Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o argumento de que o Brasil mantém práticas comerciais “irrazoáveis” não encontra respaldo nos números da relação bilateral.
“O superávit americano, nos últimos 15 anos, foi de US$ 415 bilhões. Então, quem tinha que aumentar a taxação seríamos nós, não eles”, disse o presidente.
*Com informações da Agência Brasil.

