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Green Card, vistos e cidadania americana: o que mudou após Donald Trump?

A nova era Trump já redesenhou as linhas da imigração americana – e os especialistas são unânimes em afirmar que o preparo será a principal ferramenta dos brasileiros que desejam entrar legalmente nos EUA - Imagem: istock
Com a segunda presidência de Donald Trump e o endurecimento das políticas migratórias nos Estados Unidos, o caminho para brasileiros que desejam morar, trabalhar ou obter cidadania americana ficou mais estreito – e incerto. Entre novos decretos, promessas de deportações em massa e aumento de barreiras burocráticas, especialistas alertam para uma transformação profunda no sistema de imigração legal no país.  

Neste contexto de incerteza, entender as diferenças entre o Green Card e a cidadania americana, os tipos de visto disponíveis e os detalhes do processo para solicitar a residência é fundamental. Com a ajuda de especialistas em direito imigratório, desvendamos os caminhos, os riscos e as estratégias para quem ainda almeja construir um futuro em solo americano. 

Green Card x cidadania

Para muitos brasileiros, o Green Card é o primeiro passo para o american dream. Mas é importante saber: ele não garante os mesmos direitos da cidadania. “Embora tanto a cidadania americana como a condição de residente permanente legal permitam viver e trabalhar nos EUA, a cidadania confere um nível de direitos e proteções que o Green Card não oferece”, explica o advogado Alessandro Vieira Braga.

O profissional detalha que, com o Green Card, o brasileiro pode morar e trabalhar em qualquer lugar dos EUA e até viajar internacionalmente, desde que não ultrapasse períodos prolongados fora do país. “Mas não pode votar, tem ocupação de cargos públicos limitados e está sujeito à deportação, inclusive por crimes menores – algo que se tornou muito volátil no atual mandato do presidente Trump”, alerta.

A cidadania, por outro lado, garante imunidade à deportação, salvo casos de fraude, passaporte americano e patrocínio ampliado para familiares. O processo exige, geralmente, cinco anos como residente permanente ou três, em caso de casamento com cidadão americano.

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Caminhos e critérios

Segundo os especialistas, os caminhos mais comuns para brasileiros obterem residência permanente nos EUA são os vínculos familiares, oportunidades de emprego qualificado e investimentos.  

“Para o Green Card, existem categorias como casamento com cidadão americano, parentesco direto, ofertas de trabalho com petição aprovada e investimentos significativos”, explica Daniel o advogado Ângelo Luiz da Silva.

“Casamento e patrocínio familiar costumam ser os mais rápidos, especialmente para cônjuges, pais e filhos menores de cidadãos americanos. Para parentes de preferência, como irmãos ou filhos adultos, há longas filas”, acrescenta Braga.

No campo profissional, o destaque vai para os vistos da categoria EB (Employment-Based), especialmente o EB-1 e EB-2, destinados a profissionais com alta qualificação. “O EB-2 NIW, por exemplo, permite aplicar sem oferta de trabalho, desde que o solicitante comprove que sua atuação profissional atenda ao interesse nacional dos EUA”, diz Lívia Leite, advogada e fundadora da Imigrar EUA. 

A cidadania, por sua vez, exige mais do que tempo de residência. “É necessário demonstrar bom caráter moral, residência contínua, conhecimento básico de inglês e de civismo americano”, reforça Leite. 

Segundo ela, o tempo médio de naturalização varia entre oito e 14 meses após a solicitação com o formulário N-400, o pedido oficial para um residente permanente legal, o portador do Green Card, solicitar a cidadania por naturalização.

Vistos americanos: qual é o ideal para cada perfil?

Brasileiros interessados em viver temporariamente ou iniciar sua trajetória nos EUA devem entender as diferentes categorias de vistos. Os mais comuns são os de não-imigrante, como o B1/B2 (negócios e turismo), F-1 (estudos), H-1B (trabalho especializado), J-1 (intercâmbio) e L-1 (transferência de executivos).

“Vistos como o H-1B exigem diploma de bacharel e oferta de emprego. Já o F-1 exige aceitação formal de uma instituição de ensino e comprovantes financeiros. Cada tipo tem exigências específicas e objetivos definidos”, destaca Silva. 

Lívia Leite complementa: “Existe também a categoria de vistos baseados em trabalho para residência permanente, como o EB-2 e EB-3, muito buscados por brasileiros qualificados. Já o EB-5 exige investimento de, no mínimo, US$ 800 mil em áreas específicas que gerem empregos”.

Para cada visto, a documentação inclui formulários oficiais, passaporte válido, fotos, comprovantes financeiros, histórico de trabalho ou estudo e, muitas vezes, entrevistas presenciais rigorosas.

Isso além do custo: o governo do país aprovou um projeto de lei que prevê a cobrança de uma taxa extra no valor de US$ 250 (o equivalente a R$ 1.390 na cotação atual) para a emissão de visto americano para estrangeiros que quiserem entrar nos EUA. Trata-se de um aumento significativo frente à taxa atual, de US$ 185 (o equivalente a cerca de R$ 1.029).

Os erros mais comuns

A ansiedade e a desinformação são aliadas dos equívocos mais frequentes. 

“Muitos brasileiros erram ao preencher formulários com informações incorretas, apresentar documentos insuficientes ou omitir dados relevantes, como recusas anteriores”, alerta Silva. Para ele, a pressa e a tentativa de atalhos são grandes inimigos.

Braga reforça que a inconsistência entre documentos e a falta de comprovação de vínculos com o Brasil são os maiores motivos de negação de vistos temporários. “O solicitante deve convencer o oficial consular de que tem fortes vínculos com o Brasil que o farão retornar”, diz.

“Outro erro é não entender o visto adequado para o seu objetivo. Às vezes, a pessoa tenta o visto de turista quando deveria solicitar um de estudante ou de trabalho. E pior: tenta imigrar sem preparo ou análise profissional. Não existe jeitinho. Existem vistos e requisitos – e é preciso cumpri-los”, reforça Leite. 

Como aumentar as chances? 

A chave da aprovação, principalmente para vistos temporários, está na comprovação de que o solicitante não pretende permanecer ilegalmente nos EUA. “É fundamental apresentar documentos como carteira de trabalho, declaração de imposto de renda, matrícula em instituição de ensino, escritura de imóveis e vínculos familiares”, explica Leite.

Para vistos imigratórios, o foco muda: comprovação de experiência, qualificação profissional e relação de emprego com a empresa americana são o centro do processo. “É um dossiê técnico, que exige preparo, coerência e provas robustas”, diz Silva.

Para quem tem parentes nos EUA, a imigração pode ser mais fácil, mas o tempo de espera varia. 

“Cidadãos americanos podem peticionar para pais, filhos, cônjuges e irmãos. Residentes permanentes podem solicitar para cônjuges e filhos solteiros. Mas há cotas e longas filas para categorias que não são imediatas”, explica Leite.

Braga reforça: “Para cônjuges, filhos menores de 21 e pais, não há limite anual. Já para irmãos e filhos adultos, a espera pode passar de 10 anos”. O processo exige comprovação de vínculo familiar e condições financeiras mínimas por parte de quem reside nos EUA.

“Para se naturalizar cidadão americano, o imigrante precisa viver legalmente no país por cinco anos – ou três, se casado com cidadão dos EUA –, demonstrar bom caráter, saber inglês e passar em um teste sobre história e governo dos EUA”, resume Silva. 

Além disso, é preciso apresentar um "histórico completo de qualquer registro criminal, incluindo prisões, condenações, e até multas de trânsito envolvendo álcool ou drogas, mesmo que anuladas", completa Braga.

Permanência irregular: riscos e alternativas

A permanência irregular é uma das maiores ameaças. Como afirma Leite, “se o seu visto temporário venceu, você já está ilegal. Qualquer mudança de status deve ser iniciada antes do vencimento. Solicitar outro visto não regulariza automaticamente a situação”.

Para Silva, as opções legais incluem extensão de status, mudança de categoria ou início de processo imigratório. “Mas o solicitante deve continuar cumprindo as exigências do visto atual enquanto aguarda a nova decisão”, reforça.

Braga alerta para as punições graves: “ficar além do tempo permitido pode resultar em deportação, perda de benefícios e até em banimento de reentrada por anos”.

O que muda com Trump?

Desde sua volta à presidência, Donald Trump tem implementado políticas duramente restritivas à imigração. A estratégia do governo é clara: dificultar todos os caminhos de entrada legal. 

“A proposta mais impactante é a restrição da cidadania por nascimento. Se implementada, apenas filhos de cidadãos americanos ou portadores de Green Card teriam direito automático à cidadania. Filhos de pais com vistos temporários ou sem status legal herdariam o status da mãe, criando risco de apatridia”, detalha Braga.

Além disso, as deportações ganharam força e orçamento. “O plano de deportar 11 milhões de imigrantes indocumentados, incluindo 900 mil brasileiros, gerou pânico. O ICE teve seu orçamento para detenções aumentado em 308%”, diz Braga. “Houve aumentos massivos de taxas, congelamento de processamentos e uma espécie de uso da burocracia como arma. Tudo isso desestimula a imigração legal”.

Silva avalia que “a digitalização dos processos veio acompanhada de maior rigor e cruzamento de dados. Brasileiros passaram a ter redes sociais analisadas, entrevistas mais longas e exigências reforçadas”.

Leite acrescenta que, mesmo sem mudanças formais na legislação, o número de indeferimentos aumentou. “Existe um desinteresse político claro em acolher estrangeiros, mesmo qualificados. A exceção são os investidores, que continuam sendo bem-vindos, especialmente no EB-5”.

O que esperar do futuro?

A nova era Trump já redesenhou as linhas da imigração americana – e os especialistas são unânimes em afirmar que o preparo será a principal ferramenta dos brasileiros que desejam entrar e permanecer legalmente nos EUA.

“Nos próximos anos, veremos mais exigência técnica, automação de processos, cruzamento de dados e redução da margem de erro. O sistema tende a se tornar mais impessoal e preditivo”, avalia Silva.

Para Leite, a única forma de garantir segurança é com planejamento jurídico. “Imigrar é um projeto de vida. Não dá para fazer sozinho ou com pressa. A recomendação é sempre buscar apoio especializado desde o início.”

“O sistema americano está em transformação, e o tempo da improvisação acabou. É preciso mais que sonho – é preciso estratégia, legalidade e consciência dos riscos. Porque agora, mais do que nunca, o preço do erro pode ser a deportação”, encerra Braga. 

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